Bichos como nós

Animais selvagens tomam conta de Fukushima, que ainda tem radiação num reator

 

 

Julho de 2016. O governo do Japão decidiu suspender a ordem de evacuar o distrito de Odaka, um dos que foi diretamente atingido pelo desastre nuclear de Fukushima que acontecera cinco anos antes e obrigara mais de 90 mil pessoas a deixarem suas casas sob pena de serem vítimas de irradiação. Koichi Nemoto, um dos agricultores desalojados, corajosamente voltou à sua casa e foi acompanhado pelas câmeras da TV japonesa NHK para o documentário chamado “Floresta radioativa”. Uma surpresa o esperava: semidestruída e sem a presença de humanos, sua casa, assim como todas as outras em volta, passaram a ser abrigo para animais selvagens. Uma família de javalis havia se instalado na residência dos Nemoto.

 

É do que se trata o vídeo, que tem uma interessante maneira de divulgar um dos muitos paradoxos que vivemos nessa era. A presença de animais selvagens, que naquela situação estavam convivendo pacificamente com os poucos cientistas e pesquisadores que andam pelos arredores da usina que vazou por causa de um terremoto que provocou um tsunami em março de 2011, tem um aspecto muito positivo para o ecossistema. Ao mesmo tempo, pode ser uma ameaça ao humano, raça que está no topo da cadeia alimentar.

 

“Quando cheguei, os javalis me olharam como se eu fosse o intruso, é claro. Eu me preocupo por que estou vivendo com todos os cuidados e é como se eu, o humano, estivesse dentro de uma gaiola. No fim das contas, é isso que está acontecendo”, disse Nemoto.

 

Descobri o vídeo documentário na internet quando estava à procura de confirmação para uma notícia que eu recebera, dando conta de que os técnicos da Tokyo Electric Power (Tepco), empresa que mantém a usina, tinham descoberto ainda níveis muito altos de radiação dentro de um dos reatores danificados. Infelizmente a notícia procede e foi divulgada pelo jornal britânico “The Guardian” na semana passada.

 

“Mesmo que uma margem de erro de 30% seja levada em conta, a leitura recente, descrita por alguns especialistas como "inimaginável", é muito maior do que o recorde anterior de 73 sieverts por hora detectado pelos sensores em 2012”, escreveu o repórter Justin McCurry.

 

Ocorre que uma única dose de svieter, a medida usada para avaliar a o nível de radiação, já é suficiente para causar náuseas e deixar a pessoa mal. Cinco svieters matam a pessoa em um mês, e dez svieters são fatais em uma semana, ainda segundo a reportagem. A Tepco diz que, por enquanto, a descoberta dos pesquisadores é apenas uma hipótese, e que precisa de mais tempo para confirmar a notícia. Para reconhecer este estudo recente, a empresa pretende enviar um robô que pode suportar até mil svieters. Mas os porta-vozes da Tepco se apressam em afirmar que o vazamento é interno, não está vindo para o exterior, o que é confirmado em outras reportagens sobre o tema que estão na internet.

 

Sorte para o pessoal de Odaka, que ao voltar para casa correu o risco de ter que enfrentar os animais selvagens além de ainda se expor à radiação. De qualquer maneira, a decisão do governo japonês em liberar as áreas de radiação é bem corajosa e não seguiu o exemplo de Chernobyl, na Ucrânia, que no ano passado completou 30 anos. Lá, até hoje é proibido pisar. Foram mais de 300 mil desalojados e, em quatro anos, pelo menos 600 mil pessoas trabalharam como “faxinadores” do local.

 

Em Fukushima também há esse exército de pessoas que trabalham para tentar pôr ordem no território degradado. Uma reportagem realizada também pelo “The Guardian” pouco depois do acidente, conta a história dos mais de dois mil engenheiros e outros tantos profissionais que se inscreveram para limpar o local até uma distância de cerca de 30 milhas. São chamados de “ciganos nucleares” e vêm de vários lugares do mundo em busca de um bom salário. Talvez à custa de sua saúde, porém.

 

O repórter britânico entrevistou Ariyoshi Rune, quepertence à classe de subempregados no Japão e está em Fukushima servindo como motorista de caminhão, ganhando cerca de R$ 300 por dia. A empresa que o contratou criou uma escala de irradiação, um limite ao qual o trabalhador pode ser submetido sem causar danos à sua saúde. Rune diz à reportagem que ainda teria uns dois meses de trabalho antes de atingir o pico, mas que estava torcendo para que os executivos revissem a escala.

 

“Eu tenho cerca de dois meses antes de eu chegar ao meu limite, mas eu estou esperando que eles criem uma exceção e deixem-me trabalhar por mais tempo", diz ele.

 

No documentário, porém, as convicções dos cientistas que analisam a irradiação no corpo dos animais que passaram a frequentar o local que era dos homens, não deixa dúvidas do risco que Rune estará correndo se não houver um criterioso veto à superexposição. Até andorinhas  foram infectadas e mostram uma perigosa diminuição na possibilidade de se reproduzirem.

 

Em dezembro do ano passado, o governo japonês fez divulgar uma notícia dando conta de que o custo estimado para o desmantelamento total da usina de Fukushima e descontaminação da área circundante, bem como o pagamento de compensação e armazenamento de resíduos radioativos, subiu para 21,5 trilhões de ienes (R$ 450 bilhões), quase o dobro da estimativa divulgada em 2013.

 

A energia nuclear é defendida por quem acredita que será a chance de o homem se livrar da poluição causada pelos combustíveis fósseis. Por consequência, seria também uma forma de evitar o aquecimento global. Mas os riscos não fazem valer a pena. Um país rico como o Japão já deve estar sofrendo em seu orçamento por conta do desastre. Imaginem acontecer entre os emergentes.

 

Com certeza precisamos criar novos formatos de civilização, levando em conta os desafios das mudanças climáticas. Fontes de energia renováveis são imprescindíveis para se limitar a dependência dos combustíveis fósseis. Mas optar por uma forma de obter energia que também traz riscos à vida humana não há de ser um caminho razoável.

fonte:g1

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