Bichos como nós

As histórias dos animais que ajudam a contar histórias

Fernando Silva treina a maioria dos animais que integram o audiovisual em Portugal. Alguns deles saíram da rua resgatados por associações depois de serem preparados para os ecrãs

 

Na novela Amor Maior, exibida atualmente em horário nobre na SIC e um dos programas com maior audiência da TV portuguesa, há uma participação especial. Zuzu, nome da personagem na trama e na vida real, tornou-se uma estrela do pequeno ecrã. É uma cadela, tem 4 anos e já brilhou em mais de 20 trabalhos só em cinema e televisão. Encontrada já adulta numa feira de Odivelas, vivia por aí e estava constantemente a ser "escorraçada por alguns feirantes", conta Fernando Silva. O treinador responsável pela maioria dos animais presentes nos ecrãs, seja em novela, série, publicidade ou cinema, acrescenta que Zuzu foi recuperada pela Mafra Animal. "E eu fui buscá-la."

 

A procura por animais para produções televisivas é recorrente. Foi o caso do gato Zyggi de Laços de Sangue, em 2010, de Dartacão da novela Rosa Fogo, em 2011, da cabra Elvira da série Velhos Amigos, no mesmo ano, ou ainda da porca Rosa de O Sábio, uma das recentes apostas da ficção da RTP1, entre outros. Fernando Silva acredita que a participação de animais em TV faz subir o número de espetadores. As produtoras também. "Está provado que isso acontece em publicidade e em ficção", aclara. A procura, refere, oscila consoante "os tempos de crise". "Quando há falta de dinheiro, corta-se nos orçamentos e se calhar os animais são os primeiros a sair." Porque dá mais trabalho e porque é mais caro, já que "as cenas têm de ser repetidas mais vezes".

 

As habilidades capazes de fazer em frente a uma câmara são, para o responsável, a causa do sucesso. "Se um cão fizer uma determinada habilidade ou uma coisa um pouco diferente do normal, isso chama a atenção do público e torna uma produção mais interessante e engraçada." Estas habilidades têm um preço. "De 150 euros para cima. É um valor-base para que possamos trabalhar." O cachê é divido entre Fernando Silva e o dono do animal.

 

O bem-estar destes "atores" é condição determinante. "Os bichos", como lhes chama, não devem fazer algo que vá além das suas capacidades nem exceder as horas de trabalho "para não ficarem saturados". "Também peço que lhes seja permitido tempo de descanso e condições mínimas de comodidade no local de filmagens." E exemplifica: "Nas gravações da novela Ouro Verde [que se estreou recentemente na TVI], eu estou na sala de atores junto com uma cadela que vai fazer parte do elenco. É a Zuzu, a mesma que participa em Amor Maior. Ela anda solta pelos locais de filmagem sem impedimentos."

 

Zuzu. À cadela encontrada na Feira de Odivelas somam-se outros casos de animais cuja vida mudou desde que se tornaram "atores". A já mencionada cabra Elvira gravou para a série da RTP1 depois de ter sido entregue a um veterinário para abate. O pequeno gato Zyggi também foi resgatado junto à estação de comboios da Mercês, em Sintra, dois dias antes de filmar Laços de Sangue. Fernando Silva, que concorreu ao programa de caça-talentos Got Talent Portugal com um grupo de galinhas - uma delas gravou a publicidade aos jogos Placard, da Santa Casa da Misericórdia - frisa que todos os animais são "treináveis", independentemente da espécie e do seu passado.

 

O caso Inspetor Max

Uma das ficções portuguesas que mais sucesso teve na última década trazia no título o nome de um pastor-alemão. Os cães que deram vida a Max, o inspetor de quatro patas que em 2004 se estreou em TV ao lado dos atores Fernando Luís e Rui Santos, passaram por uma experiência diferente da dos colegas. Na altura, os donos apresentaram queixas contra o treinador João Garrido, da escola de treino Acendura Brava, por alegados maus tratos aos animais que passaram pela sua escola, nomeadamente Mighty e Jazz, que protagonizaram Inspetor Max. A produção afirmou na época não ter "conhecimento de qualquer agressão sobre os animais". Maria do Céu Sampaio, presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, garante que o caso "não teve seguimento". "A legislação ainda é muito rudimentar" no que toca à defesa dos animais que participam em produções audiovisuais, justificou. Inspetor Max regressou em dezembro para uma terceira temporada. Nenhum dos dois cães que em 2004 e 2005 se revezaram para lhe dar vida integra a nova produção.

 

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Fernando Silva nunca teve problemas. Em Cascais, na escola onde educa várias espécies de animais, aplica a técnica do "reforço positivo". "Se queremos que um animal vá do ponto A para o ponto B, colocamo-lo a comer no ponto B e largamo-lo no ponto A, e a garantia de que ele vai fazer o percurso é quase certa", explica. Biscoitos, salsichas de ave ou frango assado, há sempre uma iguaria para os ir premiando. E há os brinquedos, claro. O método reflete a sua filosofia. "Eu não anestesio o animal. Eu não castigo o animal. Eu nem dou um não a um animal numa filmagem. Não há obrigação, logo não há maltrato", enfatiza.

 

Além disso, este ex-paraquedista alistado aos 17 anos para poder tirar o curso de treinador - "não havia outra via a não ser a militar" - criou o programa PAR, que resgata animais de rua ou de associações para os reabilitar e encontrar um lar. Foi o que aconteceu há sete anos com a gata Zyggi, que depois do seu momento de estrelato vive em casa de uma das colaboradoras do treinador. Quanto a Zuzu, também faz parte do PAR, mas nunca lhe conseguiu um dono. Acabou por oferecê-la à mulher no aniversário.

fonte: DN

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